De passagem

“É como a vida que aparecemos e desaparecemos e nós somos tão importantes para alguns, mas só estamos de passagem.”

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[Sobre Satantango] Dançando o mais lindo tango com o “satã”

O “satã” me convidou para dançar tango. O convite foi feito tão espontaneamente que me peguei fazendo planos para embarcar, mas isso exigia coragem; o satantango era em outra cidade e os mais entendidos do caso afirmavam que esse tango era perigoso “é uma dança/película longa, dizem que é como a vida e além do mais não é saudável passar tanto tempo com o satã”
Contrariando tudo embarquei.
O Satã, charmoso como de costume, me conduziu até a minha poltrona e despiu de suas veste de coisa ruim. Quem tomou o lugar nesse tango humanamente satânico foi o celebre Béla Tarr, que já me fez embarcar em grandes Harmonias de Werckmeister e tomar as redias do apocalíptico Cavalo de Turim.
Eram quase oito horas de um puro tango em 35 mm e foi sim como a vida.

A câmera sinestésica de Tarr nós faz embarcar em uma vila habitada por meros seres humanos. Homens e mulheres cheios de vícios e consumidos por manias mesquinhas (como na vida)
Somos jogados em um ambiente apocalíptico e a nossa função é simplesmente obervar. Nos personificamos em um dos personagens, O Medico, e só podemos observar tudo por uma janela (a câmera de Béla Tarr). É sufocante. É cruel (como a vida)
Tudo soa muito natural em Satantango e as quase 8 horas de filmes perde seu tom amedrontador. Mesmo que os planos sejam impiedosamente longos (e deslumbrantes), as cenas tem a duração que é preciso ter. (a controversas, mas soa como a vida)
O filme é uma grande alegoria ao fim do comunismo na Hungria e narra a vida em uma propriedade agrícola abandonada e os sonhos de cada um em fugir de lá. Todos perderam os valores que poderiam determinar a razão de suas existências e circulam pelo filme como almas penadas. Seus segredos, aos poucos violados, nos conduzem a uma viagem vertiginosa que lembra os passos do tango.

Os nomes da maioria das sensações sentidas na exibição de Satantango não são encontrados em dicionários. Não se pode descrever os sentimentos que transbordaram do meu corpo diante da obra máxima de Tarr. O poder que o filme teve sobre mim foi tão dilacerador que cheguei a passar mal: me faltava ar, estava enjoada e meio zonzo. Comecei a ficar preocupado, mas logo percebi que a garota do meu lado também não estava bem.
Abençoados intervalos! Não tem como ver Satantango sem intervalos e que bom o cinema nos proporcionou um tempo pra nós recompor. “preciso de cigarro, ar e lenços” falou a minha companheira de sessão. Dividimos um maço, a atmosfera e a caixinha de lenços.

Foi voltando de uma desses intervalos que o filme chegou ao ápice. Já se marcava sufocantes duas horas e quarenta de exibição quando, diante de tantas rugas e olheiras, surge na tela a mais pura feição infantil. O contraste da pureza que a criança (uma menina) carregava no olhar e a malicia bárbara dos outros moradores era arrebatador. Os enormes planos do ser angelical caminhando pelo cenário apocalíptico de Satantango eram extasiantes.

E eis que a menina nos faz sair dos céus e ir para o inferno. A pureza da personagem agora nos remete a Haneke e ao PB de A Fita Branca. De todos os filmes que vi não existem cenas mais fortes que a da garota cometendo atos angelicais de crueldade. A cena te choca não pela crueldade em si, mas pela desconstrução do personagem.
Com uma reviravolta natural, somos transportados do inferno para a terra. Para a vida. Os atos diabólicos da menina são seguidos por atos humanos. Não existem anjos e demônios naquela vila, apenas seres humanos. (como na vida)

Quando a exibição de Satantango terminou o relógio já marcava mais de meia-noite. Somando toda a exibição, os intervalos e os contratempos eu tinha ficado dez horas dentro do cinema. Foi catártico, penoso e deslumbrante.
Eu não havia dançado tango com o satã, mas sim com míseros homens. Foi um tango embriagado, lindo e desconcertante.

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Poesia apolítica (política poética)

Mais poesia e menos politicagem barata.
Ou mais política aos moldes poéticos,
mas por favor
nunca poesia nos moldes políticos.
A poesia é muito pura
A política é toda podre.

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As lindas surpresas segundaferianas

As segundas-feiras sempre estão recheadas de surpresas. Por mais que insistimos em abomina-la, é inevitável viver sem os pequenos deslumbres segundaferianos. O fato é que comprovei essa teoria um dia desses em mais uma aula no extensivo. A matéria era gramática e a sala estava lotada de alunos desesperados por uma vaga na universidade. O professor era um dos mais admirados por mim, talvez pela facilidade em passar a matéria ou pela incrível argumentação quando se tratava de discutir ideias. Entretanto ele tinha uma característica que me incomodada, o metodismo e falta de humanidade em tratar a língua portuguesa – era tudo esquematizado, estatizado e com formulas que me lembrava as matérias de exatas.
O senhor professor era um boca suja da melhor qualidade, um piadista espontânea e que me fazia mergulhar nos códigos linguísticos sem sentir o tempo passar. Porem nunca demonstrou ser lá muito sensível, pelo contrario, sempre contava as experiências do seu antigo trabalho no exercito com certa falta de sentimentalismo.
E ai que surge as lindas surpresas segundaferianas; O Captain! My Captain durante alguns anos havia escrito crônicas para um jornal e resolveu ler para a turma uma delas. A crônica escolhida falava de um tempo que seu filho ainda era pequeno. Fala das meninices, da felicidade natural da infância e comprovava a teoria que tinha sido odiada por ele quando criança: “criança não sente tristeza”.
Eu, que sou um admirador das aulas do soltado Trama, acompanhei o texto fascinado e lá pro terceiro parágrafo ele êxito. “Parou por quê?” pensei. Levantei a cabeça ele estava nitidamente emocionado. “Por isso que não gosto de ler meus textos. Desculpa pessoal… isso me faz lembrar…” Continuo a ler a crônica com uma voz nitidamente chorosa. Não aquentou muito tempo e parou de novo. “Desculpa… texto é uma coisa filho da puta, se você quer saber como uma pessoa é de verdade é só pedir que ela escreva e te mostre. As mascaras caem. É um caralho!”
Surpresas… Ah surpresas. A desconstrução de personagens em filmes e livros sempre me fascinou, mas agora estava diante de uma inteiramente real e humana. Era bela essa nova forma de desconstrução. O professor continuou a leitura com uma voz chorosa e dessa vez foi a até o final. Quando terminou de ler sua crônica se desculpou pela ultima vez e disse “a emoção muitas vezes é confundida com fraqueza”.
Depois da frase de efeito o soldado-professor passou alguns exercícios no quadro e nós mandou fazer. Não consegui me concentrar, os pensamentos estavam fervendo na minha cabeça. Apesar de todos os protestos de concepções próprias, entendi e aceitei sua frase final. Porem considerei aquela leitura emocionada um ato de coragem e não de fraqueza.
Os verdadeiros corajosos são aqueles se despem emocionalmente. O choro comovido tem que parar de ser visto como uma vergonha e sim como um ato de vangloriação. Sortudos são aqueles que, em tempos de pura falsidade, conseguem chorar de uma forma pura e sincera como O Captain! My Captain. Homens só podem ser considerados homens (não falo em sexualidade) se aceitarem e assumirem suas lagrimas. Chorar é um dos atos mais bonitos e corajosos que podemos realizar.
Talvez esconder as emoções seja o real ato de fraqueza, mas é uma coisa aceitável e racional, o mundo é muito traiçoeiro para demonstrarmos a sensibilidade que temos. No fim das contas tudo voltou ao normal: o professor de gramática corrigiu os exercícios, fez as velhas e sujas piadas e tirou sarro despreocupado dos alunos, mas no fundo ele sabia que tinha se excedido e mostrado um lado que ele não queria mostrar. Fiquei feliz por saber da existência desse lado, afinal ele era O Captain! My Captain!

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Ela e a sete faces

As olheiras eram fundas
(Um buraco negro que entregava a celestial insônia)
Os lábios eram fartos
(Fartos de estarem fartos de não ter outros lábios para somar aos dela)
O cabelo era perfeitamente desarrumado
(cada fio corretamente fora do lugar)
Sua voz era melodicamente traiçoeira
(timbre feito para encantar marinheiros)

Abriu um livro
“Eu não devia te dizer”
O buraco negro soltou uma lagrima insone
“mas essa lua”
Mordeu os lábios na tentativa de substituir o carinho da soma labial pela pressão do dente canino
“mas esse conhaque”
Mexeu na correta desordem capilar
“botam a gente comovido como o diabo”
Chamou por marinheiros, mas todos já estavam no fundo do mar.

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Major Tom

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5 de junho de 2013 · 17:54

Sobre as almas mescladas

“Fizemos um voto mútuo de que ele poderia me possuir, possuir minha mente e tudo que eu sabia, e também o meu corpo, e de que eu poderia possuí-lo, assim como tudo o que ele sabia e todo o seu corpo; nós nos daríamos um para o outro, de modo que nos possuiríamos como propriedade, para fazer tudo o que quiséssemos, sexual ou intelectualmente, e de certo modo explorar um ao outro até que alcançássemos o ‘X’ místico juntos, fazendo emergir duas almas mescladas.”

A marijuana
Os copos vazios
Todas as experiências que transcenderam e se transformaram em dor de cabeça e olheiras

O cheiro de porra
As roupas jogadas por ai
Todos os gemidos e prazeres que passaram e se transformaram em sorrisos tortos cheios de malicia e carinho

As duas almas mescladas que estão buscando o XX místico
ou quem sabe o XY místico

O domínio sexualmente intelectual
O domínio casual que quer logo umas algemas para deixar a casualidade
O domínio espiritual que quer logo acender um incenso e velas para o abençoado foda

Estamos mutuamente possuídos pela busca por experiência
Estamos mutuamente possuídos pelo amor regado a gozo
Estamos mutuamente possuídos porque você precisa de mim e eu preciso de você

Nossas almas já estão mescladas e elas não fazem questão nem uma de se separar.

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Arquivado em Experimentei e te contei, Versos teus